segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

UM PEDAÇO DE CHÃO SECO

              

                               No interior do nordeste existia uma pequena cidade, de poucos habitantes de nome Pilares. Cidadezinha simples. Apenas uma rua  a cortava  ao meio.Seu povo vivia do campo, quase um comércio de troca. Tinha uma única venda que era uma mistura de bar, mercado, farmácia, correio, pensão, um lugar de encomendas e recados. Tudo girava em torno da venda de Seu Luiz Braz, um senhor de 70  anos e que a vida toda esteve ali.O estabelecimento era um  galpão grande com um balcão comprido,  algumas mesas, bancos e redes. De necessário tudo tinha, pelo menos para aquele povo. Nos finais de tarde muitos ficavam por ali proseando e tomando uma pinga ou sentados na calçada da venda que era mais alta que a estrada e onde as pernas ficavam balançando.  Olhavam a rua  onde  crianças brincavam,  passavam cavalos e seus cavaleiros, algumas bicicletas e raríssimos carros. Estes, só de viajantes, que iam levantando a poeira até o final da visão. Aos domingos era festa. A pequena igreja de Santa Cecília,do outro lado da rua, que durante a semana virava escola, ficava cheia, O padre vinha de fora, a missa era as onze horas e muitos já vinham almoçados. Depois ficavam todos ali ao redor da venda, o grande ponto de encontro .  Era o que se tinha  e para eles era o melhor.
 Em um  13 de outubro pessoas de fora chegaram ao lugar.  Homens do poder. Reuniram o povo e comunicaram de forma definitiva que Pilares  seria inundada  pelas águas do grande rio. Males do progresso. Todos passariam a  viver em  uma Nova Pilares construída pelo governo.Da mesma forma que as águas invadiriam,  a dor invadiu os corações. A saída foi acompanhada de uma aflição e de um sentimento de perda inestimável. Aquele pedaço de chão seco que os acolhia tão bem, não iria mais existir  . E as águas vieram inundando, arrastando, levando o que podia e muito mais .Ninguém voltou lá para ver como ficou, ninguém teve coragem.
 Em Nova  Pilares, Seu Braz continuou com seu comércio, mas agora bem menor. Lá, o banco era junto ao correio, tinha uma farmácia de verdade, posto de saúde, a igrejinha ficou maior e o padre morava nela. A escola nova tinha até quadra de esporte. A Nova Pilares era nova , mas não era ela.  Anos se passaram e aconteceu o que foi para muitos um milagre. Com o novo desvio das águas,  Pilares sairia debaixo  do grande rio. Mesmo sabendo que ninguém mais poderia voltar a  viver  lá, uma mistura de alegria, saudade  tomou conta daquela gente. Os corações se encheram de um sentimento que não podiam explicar. O tempo passou e a água secou. Aos poucos um e outro ia até lá  para ver o que restou  .  Seu Braz não pode voltar, o seu tempo foi menor do que a saída das águas. A antiga professora,  casou-se com um militar e foi embora para capital, as crianças cresceram e as lembranças diminuíram. Hoje, aos domingos, alguns se reúnem no que restou da antiga calçada da venda  de onde não mais se balançam as pernas e ficam ali remoendo as lembranças e olhando para o que era a antiga rua, onde nada passará, nada além do passado.
                                       
                                                     Ismélia Rodrigues Monteiro

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ESPAÇO

Uso a palavra como caminho,
já que meus pés e meu olhar
não sabem cortar o espaço
e te encontrar em outro lugar.

Ismélia  Rodrigues  Monteiro

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

DECLARAÇÃO DE AMOR

Quando amar
Declare todo seu amor
Jamais ame calado
O que o amor não fala
Vai falar a solidão
O que o amor calou
Vai vagar, vagar  em vão.

Ismélia Rodrigues Monteiro

DELA SEI

Da lágrima que dói
Que escorre e marca
Que salga a tez
Desta lágrima
gota a gota sentida
Dela sei.

Ismélia Rodrigues Monteiro

sábado, 24 de dezembro de 2011

TEMPO VIVO

O tempo passa
E não se vislumbra o amor
O tempo é vivo
Passa
Eu que vivo estou a tanto  tempo
Sei que pior que a dor de  não ver chegar o amor
É o infortúnio de vê-lo partir
A qualquer tempo
Porque para o amor o tempo passa,
Mas para a saudade ele é infinito.

Ismélia Rodrigues  Monteiro

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Domingo

Se fosse hoje domingo
Entenderia
Porque tanta monotonia
A porta  ficou aberta
A tristeza invadiu
A solidão está lá fora
rondando
rondando
Querendo chegar.

Ismélia Rodrigues Monteiro

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O Trem

Ao findar um bom livro
Sofro de uma tristeza inquietante
Tenho que deixar os companheiros que fiz  durante esta  viagem
Fico escutando o trem apitar na curva
Sei que tenho que pegá-lo nesta estação
Regressar ao  mundo
Sempre atraso a viagem de volta
Não viro a última página
Fico ali parada e eles me olhando
Enquanto o trem vem apitando.

                             Ismélia Rodrigues Monteiro