quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O SUMIÇO DE SÃO JOÃO BATISTA

Ainda não era seis da manhã quando abri minha lanchonete na rodoviária. Mais um dia. Gente de todo lado e pra todo lado .Por aqui tem sempre uma história, gente que vai e chora, gente que vem e chora, mala perdida, gente que perde a passagem, outros perdem a viagem, brigas, encontros e desencontros, algum trabalho pra polícia de vez em quando, e por ai vai. Movimento é o que não falta neste lugar. Eu já me acostumei a essa rotina. Também, estou aqui a dezenove anos,  idade da minha filha mais nova. Sempre no caixa, afinal o estabelecimento é meu e como dizem, o  olho do dono é que engorda o porco.
Apesar da rotina, não sei explicar, hoje foi diferente.  Começou com uma senhora de cinqüenta e poucos anos, com um vestido vermelho, que chegou ao meu balcão e pediu a um de meus atendentes café com leite e pão com manteiga. Aquilo me chamou atenção. Não o que ela pediu, mas como ela pediu. Ouvi aquela voz baixinha pedir usando termos como: meu querido, por favor, se não for incomodar, você poderia  fazer a gentileza de me servir e por aí vai. Fiquei encantado com a educação. E no final, veio um muito obrigada, um Deus lhe pague e fique com Deus. Mas o diferente mesmo, foi  depois que ela saiu do balcão e foi se sentar nas cadeiras de espera, em frente a minha lanchonete. Em seguida sentaram junto a ela duas senhoras, uma mulher mais nova, uma  menina de uns oito anos e dois meninos gêmeos idênticos inclusive nas roupas. Aos poucos percebemos que era avó, tia e mãe. Pela bagagem iam para longe. A menina era quietinha, sentadinha com uma bonequinha nas mãos parecia esperar tranqüila a hora da viagem, mas os meninos, não paravam quietos. Se ouvia a todo instante alguém chamar por eles. Eric Patric, venham pra cá. Eric Patric, saiam daí, Eric Patric, parem de correr, parecia até um nome só. Eric Patric pra cá, Eric Patric pra lá. Aliás eles pareciam um só. Por uma única vez escutei o nome da menina, Pâmela. Só nome de artista! A senhora de vestido vermelho e de voz baixinha, voltou a minha lanchonete e pediu uma garrafinha de água. Ao me dar o dinheiro  me disse: olha que graça esses meninos gêmeos, cabelinhos enrolados , parecem com São João Batista. Umas gracinhas! Que pareciam com São João Batista, eu até concordei, mas de santos não tinham nada. Que meninos levados! E a gritaria Eric Patric continuava. Até que de repente, todos se levantaram e começaram o olhar em volta, inclusive a senhora de vermelho. Fiquei curioso. A mãe começou a se desesperar. A avó com as mãos na cabeça, a tia fazendo o sinal da cruz, Pâmela continuava sentada com sua bonequinha e a senhora de vermelho  olhava para todos os lados. O curioso é que ninguém falava nada, até  que a mãe chegou bem perto de um dos meninos, olhou bem  para ele por um tempo e depois gritou com toda força: Patric, onde está você? Entendi na hora. Um  dos  meninos tinha sumido. E só a mãe para saber qual.E a gritaria continuou, era Patric pra lá, Patric pra cá . Eric foi usado  como modelo, um retrato falado ao natural. E ele ia pra todo  lado no colo da avó e o que  se ouvia era: o menino que sumiu é igual a esse. Chegou segurança, polícia, depois o pai e  o tio da criança. Começou uma mistura de gritaria com choradeira. De repente, no meio daquela confusão a senhora de vermelho chegou até a mim e com sua voz baixinha e seu jeito educado, me perguntou se eu poderia dar a ela o número do meu telefone para que  quando chegasse ao seu destino, pudesse me ligar para saber se acharam o menino, que ela estava indo com o coração  apertado. Estava sofrendo com o sofrimento da família. Pensei comigo, pessoa de coração bom, de sentimento. Dei o telefone da lanchonete e do  meu celular. Ela me agradeceu com aquele jeitinho  e foi pegar o ônibus ainda em meio ao tumultuo e desespero da família. Aquela tarde foi longa.  Até o meio da noite, nada de Patric. E os comentários não eram bons. Muitos roubos de criança sem solução. Já estava arrumando as coisas para fechar a lanchonete quando o meu celular tocou. Era ela, a senhora de vermelho. Atendi e ouvi aquela voz baixinha que me falou boa noite, desculpe por estar incomodando entre  outras coisas e finalmente me perguntou com uma voz  tremula: O nosso São João Batistinha apareceu? Fiquei por um segundo congelado, não sabia como dizer a ela. Tive pena , um coração tão bom! Então,sem pensar muito, falei  que o  tinham  encontrado no banheiro das mulheres e que  tudo ficou bem. Afinal, mesmo que o encontrassem, nem eu saberia. Porque então deixá-la sofrer em seus pensamentos. Achei melhor assim. Pelo menos desta forma, Patric voltou para alguém.

          Ismélia Rodrigues Monteiro

O CHAMADO

Numa cidade do interior vivia Elvira.  Mulher de trinta anos, ainda solteira, professora , tímida e de hábitos simples. Sempre se apresentava socialmente de forma muito recatada, com movimentos corporais contidos e com um lindo e  leve sorriso. Uma pessoa que passaria despercebida  se não fosse pelo o fato de ser  chamada  de forma intermitente. Só Elvira escutava.Onde  estivesse, vinha o chamado e imediatamente ela ia ao encontro daquela voz, o  que as vezes a colocava em situação delicada , em casa, na rua,  na escola, na igreja, onde estivesse . E assim, Elvira ia levando sua vida sob a tensão de não saber quem a chamava de forma tão intensa e freqüente e sob os olhares e comentários dos que não ouviam e não entendiam o chamamento. Mas Elvira em seu íntimo, queria dar rosto  a voz. Ela dizia para as pessoas mais íntimas que era uma voz masculina, de uma sonoridade bonita de se ouvir. A vontade de personificar a voz a dominava, por isso procurava de onde estava vindo o  chamado. Elvira ouvia, parava, virava e nada via, nem ela e nem ninguém. E assim o tempo foi passando, e ela ia  procurando e procurando na esperança do encontro. A rotina foi ficando cada vez mais complicada e as pessoas preocupadas. A convenceram, de forma carinhosa e protetora a procurar ajuda.E assim iniciou-se todo um processo de tratamentos, medicamentos, aconselhamentos, mil vozes reais contra uma única imaginária. E aos poucos, dizem, que Elvira foi deixando de ouvir aquele chamado que de certa forma a movia, a nutria. O tempo passou.  Hoje, quando se comenta o fato na cidade é como algo que ficou no passado. Afirmam que continua a mesma Elvira, quieta, tímida, recatada, de hábitos simples, porém,  sem o seu  leve sorriso .

           Ismélia Rodrigues Monteiro

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

UM PEDAÇO DE CHÃO SECO

              

                               No interior do nordeste existia uma pequena cidade, de poucos habitantes de nome Pilares. Cidadezinha simples. Apenas uma rua  a cortava  ao meio.Seu povo vivia do campo, quase um comércio de troca. Tinha uma única venda que era uma mistura de bar, mercado, farmácia, correio, pensão, um lugar de encomendas e recados. Tudo girava em torno da venda de Seu Luiz Braz, um senhor de 70  anos e que a vida toda esteve ali.O estabelecimento era um  galpão grande com um balcão comprido,  algumas mesas, bancos e redes. De necessário tudo tinha, pelo menos para aquele povo. Nos finais de tarde muitos ficavam por ali proseando e tomando uma pinga ou sentados na calçada da venda que era mais alta que a estrada e onde as pernas ficavam balançando.  Olhavam a rua  onde  crianças brincavam,  passavam cavalos e seus cavaleiros, algumas bicicletas e raríssimos carros. Estes, só de viajantes, que iam levantando a poeira até o final da visão. Aos domingos era festa. A pequena igreja de Santa Cecília,do outro lado da rua, que durante a semana virava escola, ficava cheia, O padre vinha de fora, a missa era as onze horas e muitos já vinham almoçados. Depois ficavam todos ali ao redor da venda, o grande ponto de encontro .  Era o que se tinha  e para eles era o melhor.
 Em um  13 de outubro pessoas de fora chegaram ao lugar.  Homens do poder. Reuniram o povo e comunicaram de forma definitiva que Pilares  seria inundada  pelas águas do grande rio. Males do progresso. Todos passariam a  viver em  uma Nova Pilares construída pelo governo.Da mesma forma que as águas invadiriam,  a dor invadiu os corações. A saída foi acompanhada de uma aflição e de um sentimento de perda inestimável. Aquele pedaço de chão seco que os acolhia tão bem, não iria mais existir  . E as águas vieram inundando, arrastando, levando o que podia e muito mais .Ninguém voltou lá para ver como ficou, ninguém teve coragem.
 Em Nova  Pilares, Seu Braz continuou com seu comércio, mas agora bem menor. Lá, o banco era junto ao correio, tinha uma farmácia de verdade, posto de saúde, a igrejinha ficou maior e o padre morava nela. A escola nova tinha até quadra de esporte. A Nova Pilares era nova , mas não era ela.  Anos se passaram e aconteceu o que foi para muitos um milagre. Com o novo desvio das águas,  Pilares sairia debaixo  do grande rio. Mesmo sabendo que ninguém mais poderia voltar a  viver  lá, uma mistura de alegria, saudade  tomou conta daquela gente. Os corações se encheram de um sentimento que não podiam explicar. O tempo passou e a água secou. Aos poucos um e outro ia até lá  para ver o que restou  .  Seu Braz não pode voltar, o seu tempo foi menor do que a saída das águas. A antiga professora,  casou-se com um militar e foi embora para capital, as crianças cresceram e as lembranças diminuíram. Hoje, aos domingos, alguns se reúnem no que restou da antiga calçada da venda  de onde não mais se balançam as pernas e ficam ali remoendo as lembranças e olhando para o que era a antiga rua, onde nada passará, nada além do passado.
                                       
                                                     Ismélia Rodrigues Monteiro

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

ESPAÇO

Uso a palavra como caminho,
já que meus pés e meu olhar
não sabem cortar o espaço
e te encontrar em outro lugar.

Ismélia  Rodrigues  Monteiro

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

DECLARAÇÃO DE AMOR

Quando amar
Declare todo seu amor
Jamais ame calado
O que o amor não fala
Vai falar a solidão
O que o amor calou
Vai vagar, vagar  em vão.

Ismélia Rodrigues Monteiro

DELA SEI

Da lágrima que dói
Que escorre e marca
Que salga a tez
Desta lágrima
gota a gota sentida
Dela sei.

Ismélia Rodrigues Monteiro

sábado, 24 de dezembro de 2011

TEMPO VIVO

O tempo passa
E não se vislumbra o amor
O tempo é vivo
Passa
Eu que vivo estou a tanto  tempo
Sei que pior que a dor de  não ver chegar o amor
É o infortúnio de vê-lo partir
A qualquer tempo
Porque para o amor o tempo passa,
Mas para a saudade ele é infinito.

Ismélia Rodrigues  Monteiro