quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O Trem

Ao findar um bom livro
Sofro de uma tristeza inquietante
Tenho que deixar os companheiros que fiz  durante esta  viagem
Fico escutando o trem apitar na curva
Sei que tenho que pegá-lo nesta estação
Regressar ao  mundo
Sempre atraso a viagem de volta
Não viro a última página
Fico ali parada e eles me olhando
Enquanto o trem vem apitando.

                             Ismélia Rodrigues Monteiro

sábado, 27 de agosto de 2011

Florada

Por vezes, o sentimento de fim nos chega.
Mas o que  pensamos ser fim, pode gerar nascente.
É o poder da poda.
Basta perceber o broto,
Regar
E viver a nova florada.

Ismélia Rodrigues Monteiro

Calabouço

Pode se vestir com tecidos da monarquia
Cobrir teu corpo de carne e osso com o luxo dos reis
Entrar em  castelos onde portas se abrem para teus passos de orgulho
Manter o olhar no horizonte enquanto cabeças se dobram em reverência a tua soberba
Crescer em seus pensamentos como um ser absoluto  e magnânimo
Segurar taças,  mostrar anéis
Se manter ereto com todo este peso de adorno e brilho
Mas não abra  tua boca
Pois na primeira palavra o cheiro do calabouço virá.

Ismélia Rodrigues Monteiro

Arbítrio

Que desejo é este que fixa teu olhar na imagem que se foi?
Que querer é este que te faz viver parado  no tempo da foto?
Que sentimento é este que não te deixa ver que agora é saudade?
Que amar é este que te impede de ser livre e te prende a absolutamente nada?

Ismélia Rodrigues Monteiro

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Desapego

      Zeca era peão. Cuidava do gado. Vivia à cavalo. Cortava a fazenda inteira todos os dias.Começou muito novo nesta vida. Vida que gostava. A única que conhecia. Seguiu o pai na mesma fazenda. Ali foi que tudo começou. O olhar que direcionava, o coração que alterava a batida, o rubor da face, um sentir-se bem, muito bem quando ela aparecia.Cecília era filha do dono da fazenda. Quando menina, ficava muito tempo por lá. Principalmente nas férias. Mas agora  prefere a cidade grande onde vive. Este lugar pacato foi perdendo valor para ela. Zeca em seu pequeno mundo, vivia daquele sentimento. Não conhecia outro maior, mais dominante do que pensar em Cecília. Sua princesa de cabelos longos, de mãozinhas pequenas, que andava nas pontas dos pés. Quando criança brincavam o dia inteiro. Ele a ensinou a pescar, a andar à cavalo e a jogar pedras no meio do lago e ficar vendo as ondas. Das gangorras nas árvores, do escorregar nos barrancos, quantas lembranças. Mas isso já vai tempo. Há muitos anos Zeca  não a vê. Só a imagina. A coloca em seus pensamentos de forma especial todos os dias. Quando o sol vai descansar ele deita em seu banco de árvore e fica a pensar nela e a mirar o céu, esperando as estrelas que estão por chegar. Quando  percebe a lua já  domina o ambiente e o céu estrelado já se faz presente. E  por  horas ele fica a imaginar como seria se ela estivesse ali, ao seu lado, de  mãozinhas dadas e uma alegria vem e o sono também. Ele se despede dos companheiros de sonho e se recolhe para um novo amanhã. Anos a fio assim todo dia. O amor e sua amada em seus sonhos que vinham olhando para o céu da noite. E  o tempo ia passando.....
        Hoje notícias diferentes entoavam no ambiente. Cecília iria chegar. Zeca foi tomado por um sentimento inexplicável . A vontade de rever o rosto dos seus sonhos era incontrolável. No meio da tarde movimentos de carros. Coração sobressaltado. Zeca encerrou mais cedo os trabalhos e foi até a casa grande para o encontro. Vinha pensando como ela poderia estar depois destes anos. E de longe a avistou. A respiração alterou. Ela estava no alto da escada da varanda, com o mesmo cabelo comprido, o sorriso da pescaria, mas suas mãos não eram as mesmas. As mãos não estavam livres. Alguém de mãos dadas descia  com ela a escada. Zeca parou, seu corpo esfriou como na morte. De longe e estático ficou a ouvir sobre o casamento que seria na fazenda. Era dor, muita dor.
        No fundo ele sabia que só em sonho. Deixou tudo aquilo para lá e foi até o seu banco esperar o sol descansar e o luar vir cumprir a noite. De repente foi ficando escuro. O céu parecia muito perto, como se pudesse tocar com os dedos. Fechou os olhos por um bom tempo. Olhos inundados. Sentiu uma chuvinha fina em seu rosto. Abriu os olhos. Hoje não tinha estrelas, nem a lua apareceu. Acho que não sabiam o que  sonhar com ele. Então voltou a fechar os olhos e uma leve brisa começou a tocar seu rosto, bem de leve, como se o ninasse, para que ele adormecesse  e não sonhasse mais.

                                                                          Ismélia Rodrigues Monteiro

Espelhos

Não quero mais acordar
Quero vagar em sonhos
Sem peso e calor algum
Quero nada ser
"Insignificar"
Desaparecer
passar por espelhos
E nada ver.

               Ismélia Rodrigues Monteiro

Hipertensão

A vida me fez hipertensa
De tanto lamber o meu sal
O sal que escorre até a boca
Enquanto a paz não vem.

                         Ismélia Rodrigues Monteiro